terça-feira, 3 de agosto de 2010

Estudo sobre a capacidade de lotação (ou A quantidade de lugares vagos) do meu coração

Sobre a infância e os choros sem nenhum motivo aparente, posso dizer que usei. Tudo que fingi aprender na escola, no colégio e na vida sem nenhum perigo real, eu usei.
E hoje posso ver com mais clareza as lógicas e armadilhas desse caminho tortuoso em direção à morte.
E só posso falar com certeza, que o maior mal do homem é a tão cultuada Relação interpessoal.
Eu me entendo, sei de onde venho e de onde surgiram minhas fartas convicções. Sei o que é realmente certo e que o errado torna-se nulo para alguém de coração puro.
Mas conheço alguém, ou 'alguens' que me fazem chorar. Com lágrimas sinceras. E que mudam como um raio a minha vida e minha visão parca de mundo.
Vivo, sonho e espero tudo dessa frágil e solitária pessoa, antes citada como alguém, ou 'alguens'.
Meu mundo desmorona e eu esqueço, como num piscar de olhos, minhas antes fartas convicções por um simples motivo: agradar de todas as formas, este alguém que adentrou como um automóvel desgovernado em minha vida.
Tornar o mundo num paraíso eterno para esta pessoa, ou para estas pessoas.
E quando perto, como numa loucura sem sanidade alguma aparente, esse alguém (ou 'alguens') simplesmente deixa de existir, existindo, em minha vida.
O ar fica mais raro. E os sonhos se tornam meros detalhes acidentais de uma vida louca.
Sobra espaço num local antes lotado. Meu coração.
E, apesar de ter usado todo meu conhecimento infantil, vejo meu coração, e neurônios responsáveis pelas partes emocionais do cérebro, despedaçados.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Vontades espelhadas, verdades mostradas

Ele acordou de uma noite mal dormida. Aquele tipo de sonho que confunde a cabeça de todos, fazendo-os pensar se era isso ou a mais pura realidade, havia o pegado nesta madrugada.
O sonho não é tão importante. Ainda.
Cansado, se arrastou até o banheiro. Urinou de olhos fechados e só os abriu na frente do espelho. Viu seu reflexo e ameaçou-o com uma levantada de sombrancelha desafiadora. O reflexo fez o mesmo.
Ele continuou brincando com o reflexo durante alguns minutos.
Cansou e foi escovar os dentes. O reflexo fez o mesmo.
E percebeu que mesmo quando o movimento não era em direção ao espelho, o reflexo imitava o gesto, mesmo assim.
Resolveu testar.
Ele iria ficar o dia inteiro na frente do espelho, agindo normalmente.
Seus olhos estavam vermelhos e sua pupila dilatada.
Olhou como se estivesse olhando para uma menina.
Tomou um enorme susto.
Sentiu repulsa de seu próprio rosto.
Era ridículo.
Ele parecia a pessoa mais horrorosa que ele jamais havia visto.
Era mesquinho, machista, vulgar e nojento.
Continuou a olhar.
Deitou-se no chão frio e levou o espelho consigo deixando os braços estendidos, mirando sua cabeça recostada.
Olhou como se olhasse para as estrelas.
Outro susto.
Seu olhar parecia oco, fraco, nulo.
De novo, uma face monstruosa.
Parecia pedinte, sofredor, ele olhava pro céu desejando tudo, sugando tudo, como se quisesse o universo para si próprio.
Olhou pro lado e levantou.
Posicionou o espelho atrás de sua cabeça e tentou olhá-lo por cima dos ombros.
O frio subitamente lhe tomou o intimo.
O reflexo não era mais ele.
Não parecia nem um pouco com a imagem que ele sempre teve de si próprio.
Botou o espelho no lugar e olhou normalmente.
No reflexo havia desaparecido qualquer semelhança com a pessoa que entrou no banheiro sonolenta.
Virou as costas pro espelho.
Abriu a porta.
Caminhou até a cozinha, deu um abraço na sua mãe, imaginando como sua própria expressão deveria estar intragável, desviou o olhar dela e a girou de forma que fosse possível para ele pegar uma faca de serra sem ela perceber.
Enfiou a faca no bolso e cessou o abraço.
Deu um beijo na face dela e voltou lentamente ao banheiro, segurando suas próprias pernas para não correr.
Abriu a porta viu o reflexo horrendo.
Tirou a faca serrilhada do bolso e, olhando fixamente para o espelho, enfiou-a bem no lado esquerdo do peito.
Sua última visão foi seu rosto.
E naquele momento ele viu sua verdadeira face e sorriu, antes de morrer.
Seu último pensamento foi o sonho da noite anterior: uma orgia, com 5 meninas, todas totalmente submissas a ele, acontecendo no seu quarto, enquanto sua mãe dormia no quarto ao lado.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Saudades (ou Porque você insiste em músicas antigas?)

Se escrevo uma música de amor inspirada num lindo relacionamento com A...
Se o relacionamento termina, ou A morre, a música ainda é válida?

Se escrevo uma música falando sobre hábitos, costumes e rotina de B...
Se B muda sua vida e explode a rotina todos os dias, a música ainda é válida?

Se componho uma música com graves vindos da voz de C, solinhos doces como o toque das mãoes de C...
Se C me fala que não vai me tocar mais, a música ainda é válida?

terça-feira, 13 de julho de 2010

O ar e a íris

Sentado no ar, preferiu pisar no chão e olhar pra frente, para onde o seu corpo apontava.
Horizonte amarelo e seu sorriso ainda coloria.
E o ar? Arco. Íris.
Seu olho brilhou e esperou olhares brilhantes.
Os outros preferem falar. E ele não consegue desperdiçar este poder.
Palavras são fartas, mas o que sai de tão abundante parece, sempre, vazio.
Rostos sem novos medos.
Esperando sempre e não expressando o que guarda-se atrás do, agora escuro, olhar.

Cinza Escuro

Sobre o ódio, posso dizer que é necessário.
O resto, importa para alguns.
Hoje, ele me olhou com paixão.
Paixão controvertida, inversa.
Ele queria meu sangue.
Queria meu resto.
Ele sonhou com uma nuvem e viu ela ficar cinza, maior e cheia de água. Ódio celeste.
Ele precisava chover, como a nuvem carregada.
Seu sentimento precisava cair, chover.
Não suportava mais segurar nada dentro de si.
E ele resolveu chover em mim, descarregou sua angústia e depois sorriu.
Ele se completou e descarregou todo cinza, chuva e ódio em mim.
Sobre ele, posso dizer que seu coração estava tão cheio, que não conseguia apenas chorar.

sábado, 3 de julho de 2010

3

Eles se tocavam como amigos.
E se desejavam como amantes.
Suavam e conversavam.
Ele conhecia ela de um sonho.
Ela conhecia a outra, que foi apresentada a este, que se apaixonou por mais de um amor.
Três.
Talvez o número mais completo e aberto que existe.
3.
E três lados sempre se atraem por pequenos ângulos em comum.
Como num triângulo.
E era fato ver que nada podia ser mais sincero que aquilo.
E que nenhum pensamento triste, vulgar, pequeno, banal, egoísta e dependente poderia tirar glamour e amor dos momentos que viviam juntos. Os três juntos, ele e ela, ela e ela, nós, vós, eles...
Cumplicidade e liberdade eram cheiros que exalavam de seus corpos crus, quando juntos. Ou quando próximos, em pensamentos.
Faziam questão de não notar aquilo com outros olhos, que não os deles próprios.
Uma vida a três.
E sem portas impedindo a passagem de novos ares por entre os três.
Se encontravam e aquilo soava a festa, tesão, felicidade, desejo, vontade, toques de peles suaves e dois ou mais tipos de perfumes.
Era lindo.
O amor, como prova de não prisão.
O amor como ele deve ser, solto, incondicional. Sem nenhuma condição para se tornar um amor verdadeiro e, às vezes, instantâneo.
E eles podiam ver o outro, se deliciar com o gozo alheio.
Novas formas de se ter prazer.
Era esta uma das linhas que guiavam suas vidas, mesmo sem eles perceberem: procurar pela vida, em baixo de qualquer pedra, em cima de qualquer nuvem, uma sensação, satisfação absoluta. Sem rodeios, sem medidas, sem prazos. Só vontades premiadas.
E eles podiam provar mais de um gozo.
Podiam sentir mais, bem mais de apenas um desejo por vez.
Eles sonhavam e se encontravam vivendo exatamente o que tinham desejado.
Um dia eles se mudaram para longe.
Pois este é um país de loucos que se ofendem com beijos, amores e seios descobertos.
Eles precisavam de mais espaço.
Eles não conseguiam pensar apenas no seu próprio deleite.
Eles se deleitavam em provocar deleites.
E dois talvez fosse muito pouco pra tantos dias...

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Ar

Como se cada minuto fosse vivido como o último.
Suas entranhas fervem e te comem por dentro.
Todo ato é seu último.
E todo respirar...
Se cessa.
E a cada expirar sai de dentro todo o ar velho e cheio de vida de um minuto, vivido com toda força, ao menos por seu corpo.
E o pulmão te pede o ar de outro.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Insólito ar

Voz mansa, como se nada ao seu redor realmente importasse.
Respiração lenta e ritimada.
E ter todo tempo de mundo a sua frente, ás vezes não é tão vantajoso assim.
Alegres são os que deixam o tempo passar.
Fechar os olhos e esperar o mundo decidir que está, ou não, na hora de você sorrir.
Ela acordou.
O dia era tão escuro e chuvoso quanto o anterior.
Não havia razão alguma pra sair da cama, mas ela saiu, desafiando sua sina.
Queria um pouco de atenção.
Sonhou com bolhas, num mar de sabão.
Dormia num quarto umido e com uma brecha que entrava pouquíssima luz.
Mas ela não precisava de luz.
Ela não precisava de nada.
Nem amor, nem ódio, nem tempo, nem dinheiro.
Ela não era feliz e nem pretendia ser.
Estava bom assim.
Um dia chegou a sonhar com o tal príncipe.
O procurou toda noite em baixo das cobertas e nas pistas de dança.
Não encontrou nada.
Desistiu do príncipe.
Desistiu dos homens.
Desistiu das pessoas.
Mas mesmo assim, continuava sentindo necessidade de pele.
Se tocava todo dia.
Aquilo a fazia sorrir.
Mas era tão solitário.
Ainda faltava outra pele, que não a dela própria.
Beijava paredes no banheiro, fingindo ser seu prícipe.
E ele parecia mais um junkie cult, do que exatamente um nobre de cabelos loiros e roupas limpas.
Resolveu parar de esperar.
Começou a olhar para os meninos, como apenas diversão.
Quebrou muitos corações, mas se divertiu.
Esperou o fim.
Morreu quieta e insatisfeita.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Satisfação (ou Desespero)

Como criança que vai dormir tendo acabado de voltar da sorveteria e onde tinha experimentado 3 sabores diferentes.

Sobre o céu, ele pôde ver suas nuves cobrirem a lua.

Ele quer engolir o mundo.

Aranha.

E era frio, como ele gostava.

Como alguém que sai de casa numa nevasca e entra em outra casa de alguém louco e cheio de vida pra mostrar.

Pontos finais são interessantes.

Mas os de continuação são mais misteriosos.

Reticência, então...

Ele prefere lugares diferentes.

Ele ainda sonha em experimentar todas as sensações.

Mas seu porto fica cada dia mais longe.

E mar adentro se entrega.

Olhando sempre pro céu.

E suas estrelas estupidamentes bonitas.

Há navios perdidos.

Sobre o mar ele pôde sentir na pele a sensação de prisão e liberdade de estar imerso.

Era bom.

Prefiria não lembrar.

Queria sonhar.

Como astros, que se conhecem e não se tocam.

Não.

O toque.

Sobre o ar ele não podia falar nada.

O ar existe?

Este que cerca sua boca é o mesmo?

Espaço.

Pouco espaço.

Quer perto.

Só.

Só a dois.

Três.

Como o ar, ele quer não existir e tocar tudo. Sem prender como o mar ou se esconder como a lua no céu ...

sábado, 26 de junho de 2010

Lágrimas e brilhos furtivos

Socar seu estômago.
Primeiro pensamento registrado numa cabeça que não suporta mais peso nenhum de nada que não seja concreto.
E o medo surge feito um trem descarrilhado e descontrolado que aparece por trás das árvores.
O soco te faria perceber que existe muito mais em uma pessoa do que seu olhar.
E que nem todas conseguem exatamente falar o que precisam. Lhes faltam instintos.
Te faria deixar o silêncio tomar conta. Deixar tudo ser como o ar. Que é sábio, a propósito.
Esquecer tudo que pôde um dia te magoar e te ferir, quando nem mesmo te toca.
E você devia mesmo saber que a vida não é apenas uma linha e sim um triângulo. Onde todas as partes se tocam e são dependentes.
Precisamos dos outros e precisamos de muitos.
Lembra aquele menino que conhecemos?
Ele ainda vive embaixo de uma macieira, naquela mesma colina. E toda noite ele sai pra caçar estrelas.
Ele tinha ganho uma, tempos atrás
Cadente.
Você chegou a conhecer, lembra?
Ela era linda.
Mas era só e cada vez brilhava menos.
Estrelas precisam das suas vizinhas para brilhar mais ou menos.
E ele precisava de novos brilhos.
Queria parar de admirar as estrelas apenas no ceú e ter só uma ao seu alcance.
Precisava disso.
No primeiro dia, ele simplesmente esperou a noite cair e viu a estrela que mais brilhava para ele, naquele momento.
Pois o brilho das estrelas certamente não é igual para todos olhos, assim como as cores.
Ele pulou por sobre os galhos da macieira e foi escalando até o topo.
Olhou para trás e viu sua estrela cadente sem forças para brilhar ou vim para o céu com ele.
Deixou-a com um triste adeus.
Voou e foi atrás da que mais brilhava.
Segurou-a com todos os dedos.
Toque quente, suave e espirituoso.
Trouxe-a pra junto do seu corpo.
Decidiu que aquela noite não voltaria pra macieira.
De manhã chegou e sua estrela no chão tinha virado pó. E foi levada com o vento.
Ele chorou.
Na outra lua, ele recebeu a visita daquela estrela da noite anterior.
Ela queria só sentir seu toque de novo.
E aquilo lhe fez bem.
Daí em diante ele passa quase todas as noites no céu, sendo impulsionado pela vontade.
Podemos encontrar ele de dia, deitado na sombra de sua arvorezinha.
Feliz e com uma estrela morta ao lado.
Lágrimas e brilhos furtivos é isso que ele tem agora.